Fortuna, o jogo.
Apesar da elegância dos trajes o espelho insistia em refletir um menino pobre, faminto e nordestino. O cheiro não era de seu perfume Louis Vuitton, mas sim o de chão batido misturado ao suor azedado pelo sol escaldante ou mofado pela escuridão vazia do casebre onde morava.Sorriu orgulhoso de onde chegou, procurou afastar da cabeça a tortuosa lembrança da infância. Deixara para trás um pai bêbado, uma mãe louca e uma irmã, na época inofensiva criança suja, hoje, talvez fosse mais uma vagabunda da vila. O mais estranho da história é o fato dele não saber se fora doado pelos pais, esquecido em algum canto onde ninguém lembrou de procurar ou se fugiu de sua família, se fugiu de seu destino escrito no barro seco, sujeito ao vento e à chuva. É como se tivesse dormido na cama de papelão envolto a jornal e acordado atrasado e de ressaca num hotel de luxo na zona sul do Rio de Janeiro.
“Hoje, boi, vaca, coelho ou tatu é só no prato e mal passado” – brincava em pensamento. “Limão, só na caipirinha.”. Não tem amigos de infância, os de faculdade, um ou outro ainda liga ou manda email, vizinhos, são apenas para comprimentos. Tinha conhecidos, grandes amigos, não.
Peço um parêntese para a história desse cara que eu conheço “por cima”. Essa independência toda, essa liberdade toda se resumia, na sexta-feira a noite, em solidão. Era assim, madrugada adentro, som alto, cigarro, prostitutas, whisky, chuva de dinheiro. No sábado jogaria tênis e perderia algumas horas com internet e tv.
Estava atrasado, penteou os cabelos, apanhou as chaves – Alfa Romeo Brera, 2005 – e partiu para mais um desenfreado dia.
Na portaria, deu bom dia a Clarisse. Passei, logo atrás, despercebido.
Ilustração : La Roue de la Fortune. Calque de Miniatures de l’Hortus Deliciarum de Herrade de Landsberg.Paris: Bibliothèque Nationale de France (Dept. Estampes Ad 144 a) - A Roda da Fortuna.


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