Terça-feira, Fevereiro 12, 2008

Clarisse e Eu (O último suspiro do sol)

II - O mal de ser capaz

Encontrara Clarisse duas ou três vezes naquela semana. Mulher muito bonita e inteligente é difícil de se lidar. Primeiramente porque ela corre grande risco de se perder em si mesma, dar mais valor à bunda, crer na beleza como a principal arma contra todo o mundo, o que, com certeza, fará dessa linda mulher um ser desprezível, mascador de chiclete e penduricalho de bijuterias. Rosto, peito, bunda, pernas torneadas. Segundo, para o sexo oposto também não é nada fácil não se submeter à forma exterior feminina e acabar apostando todas as fichas no lado azarado da roleta e ganhar o majestoso prêmio de consolação: tornar-se um babaca metido a pegador, tímido, pseudo-intelectual.
O fato é que ela até me tratava bem. Com uns drinks a mais não resistiria. Quem resistiria?

III - Por mim e por você

A quietude dela não era tão somente pela briga da noite que passara. Algo mais perturbava aquela cabeça cheia de idéias revolucionárias. Era coisa séria, mas o que? Qual era o mal de Clarisse? Abriu a porta e saiu chateada.
Lembrei-me aquela tarde como fora difícil atrelar um namoro de verdade. Meses a fio. Entre encontros e desencontros, telefonemas infortúnios. Clarisse adora me ver brincando com o próprio ego, dizia ser ela minha maior conquista material. Pouco depois, entretanto, essa mesma piada tornou-se uma arma e tantas vezes fui jogado contra a parede questionado a cerca de sua veracidade.
Não me sai da cabeça: “... termina essa merda de romance e saia da minha casa...”. Talvez essa tenha sido a frase mais feia e cruel que aqueles doces lábios sibilaram. Ela começara a relacionar o fato de eu estar escrevendo um livro com a minha vontade interna de beber e não fazer mais nada o dia todo.
No fundo eu sabia: Clarisse me amava.


IV - Cotidiano

Esgotado. Estava eu há dezesseis horas acordado em um dia tortuoso, sem previsão de retirar-me e render-me à cama. Ainda tenho de ir para o quintal, conferir se está tudo calmo e alimentar o cachorro, rotina diária, talvez, dependendo do clima, fumaria mais um cigarro.
Clarisse me ligou por volta da meia-noite. Surpresa. O telefonema inesperado, trouxe a tona meus últimos trinta por cento de felicidade da semana, contudo, bastou tocar no assunto dinheiro para o tom da conversa mudar. Acinzentou-se a noite que era amarela, fez-se de minha poesia um manifesto irracional, e eu ainda insistia naquela história de fazermos uma viagem.
- “ Tudo bem, a gente se vê amanhã.”
Levantei para urinar e tomar água pela terceira vez naquela noite. Aquele gato andara fuçando no lixo outra vez. O que ele podia querer ali? Quer descobrir algum segredo. Ascendi a luz e peguei-o no sono mais profundo do reino animal, o sono cínico.
Nostalgia. Sim, me vi ali, na madrugada, mais de quinze minutos com os olhos fixados no retrato. Clarisse e eu em Ilha Bela. Lembro bem da data da foto, feriado de dois de novembro, enquanto os católicos caminhavam professando sua fé, ainda bebíamos caipirinhas a beira mar. Ainda passei o olhar por alguns retratos da família. Preto e Branco, nada que me interessasse muito, não naquele momento.
O relógio: quatro e quinze. Meu Deus! Como pude acordar desanimado?

V - O fim é belo

Conheci Clarisse na mesa de um bar. Foi a primeira e seria a única mulher que eu não conhecia por intermédio de algum conhecido. Fui eu, sozinho, “oi”, “tudo bem?”, “como vai?”. Terrível, mas ela se encantara. Tudo bem, ela não era lá essas coisas, vou falar: não era tão gostosa. Deveria ter tentado algo já naquela noite. Bobeei. Deixei a melhor oportunidade de minha vida passar lentamente sob meus olhos. O resultado: Clarisse cresceu, maravilhou-se e esqueceu daquele alcoólatra que se apaixonara a primeira vista, se é que isso existe.
Clarisse e eu terminamos por telefone.
O Último Suspiro do Sol faz parte do livro que escrevo, coloquei o resto da história inteira como forma de me redimir pelo abandono do blog. A primeira parte foi postada em outubro de 2006. Clique aqui.
Se ainda tiver tempo comente.
Vamos começar 2008.